
Festa: 29 de outubro
São Narciso de Jerusalém
Bispo de Jerusalém nos primeiros séculos • séculos II–III
Narciso foi bispo de Jerusalém na virada do século II para o III. Eusébio de Cesareia, que é a fonte principal, conta que ele presidiu, com Teófilo de Cesareia, uma assembleia de bispos da Palestina sobre a data da Páscoa, que foi caluniado, retirou-se por muitos anos para lugares ermos e voltou já muito idoso, quando passou a ser assistido por Alexandre. A Enciclopédia Católica situa sua morte em 212.
01
O caminho de santificação
A vida de Narciso chega até nós quase só por Eusébio de Cesareia, na História Eclesiástica. É um autor próximo, que escreve cerca de um século depois e reproduz uma carta do próprio Alexandre, o bispo que o assistiu. Mesmo assim, o que ele diz de Narciso é sobretudo episódico. Não há biografia em sentido pleno, e as fontes consultadas não esclarecem onde nasceu, em que ano começou o episcopado ou como foi escolhido. Datas como o início do episcopado ou o ano da assembleia sobre a Páscoa não são dadas por elas.
O episódio central é a calúnia. Eusébio conta que alguns homens espalharam uma acusação contra Narciso e juraram em falso, invocando sobre si fogo, doença e cegueira se mentiam. Sua vida era bem conhecida, e os fiéis não deram crédito. Mesmo assim, ferido pela maldade, Narciso afastou-se da Igreja e viveu muitos anos no deserto e em lugares escondidos. Eusébio acrescenta que os três acusadores sofreram o castigo que haviam invocado. Esse acréscimo é típico do relato antigo e, embora esteja na fonte, pertence ao gênero narrativo dela: não se pode tratá-lo como fato verificado por outra fonte.
Enquanto Narciso estava ausente, bispos vizinhos ordenaram Dio, depois Germanião e depois Gordio. Sob Gordio, ele reapareceu, como que ressuscitado dos mortos, e os irmãos pediram que reassumisse o episcopado. Não se vê nesse retorno uma vingança nem uma polêmica. Quem tinha sido ferido pela calúnia volta quando a comunidade o chama, e o aceita. Para quem sofreu uma acusação injusta, a lição é prática: a verdade que se confia a Deus e ao tempo pode ser reconhecida pelos outros sem que a pessoa precise provar nada à força.
02
Vida e reconhecimento, em ordem cronológica
- séc. II–III
Assembleia sobre a Páscoa
Eusébio de Cesareia conta que Narciso presidiu, com Teófilo de Cesareia, uma assembleia de bispos da Palestina sobre a questão da Páscoa. O ano não é dado nas fontes consultadas.
- data incerta
Calúnia e retiro
Depois da acusação falsa, Narciso afasta-se da Igreja e passa muitos anos em lugares ermos.
- data incerta
Retorno
Reaparece sob o bispo Gordio e é convencido a reassumir a sé de Jerusalém.
- data incerta
Alexandre como coadjutor
Por sua idade avançada, a comunidade chama Alexandre, bispo da Capadócia, para governar com ele. Eusébio cita uma carta de Alexandre que dá a Narciso 116 anos; a Enciclopédia Católica fala em 110.
- 212
Morte
A Enciclopédia Católica situa em 212 a morte de Narciso.
03
A questão da Páscoa e a sucessão em Jerusalém
A assembleia da Palestina
Eusébio de Cesareia registra que subsiste um escrito dos bispos reunidos na Palestina, presididos por Teófilo, bispo de Cesareia, e por Narciso, bispo de Jerusalém, a respeito da questão da Páscoa. É o testemunho de que Narciso participou da discussão sobre a data da celebração, mas as fontes consultadas não detalham o que foi decidido nem em que ano a assembleia se reuniu. A Enciclopédia Católica, no artigo sobre Jerusalém, não menciona essa assembleia.
Alexandre, primeiro coadjutor
A Enciclopédia Católica diz que Alexandre, amigo de Orígenes, foi escolhido coadjutor de Narciso, idoso titular da sé, e que esse foi o primeiro caso de translação episcopal e de coadjutoria, que precisou ser ratificado pela hierarquia da Palestina. Eusébio diz que a decisão veio de uma visão noturna, que levou a comunidade a chamar Alexandre a Jerusalém. Alexandre morreu na prisão, em Cesareia, na perseguição de Décio.
A idade de Narciso
Divergência entre as fontes. Eusébio cita uma carta de Alexandre, segundo a qual Narciso está associado a ele nas orações, com 116 anos de idade. A Enciclopédia Católica, ao resumir o episódio, fala em um ancião de 110 anos. As fontes consultadas não esclarecem a razão da diferença.
04
A lâmpada da Vigília Pascal
O relato de Eusébio
Eusébio conta uma tradição segundo a qual, na grande vigília pascal, faltou óleo para as lâmpadas. Diante da perturbação da multidão, Narciso mandou trazer água, orou sobre ela e pediu que fosse derramada nas lâmpadas; segundo o relato, a natureza da água se transformou na do óleo, e um pouco desse óleo foi guardado como lembrança por muito tempo. Convém acolher o episódio como Eusébio o apresenta, como relato recebido da comunidade de Jerusalém, sem afirmar mais do que a fonte afirma.
A memória da Igreja
O culto de Narciso é muito antigo, anterior aos processos de canonização. Os textos que chegaram a nós não descrevem um processo de reconhecimento; a memória de 29 de outubro apoia-se nessa veneração antiga.
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